Informação de Polícia Judiciária de Análise (IPJ-A) nº 3298613/2026, NADIP/DFIN/CGRC/DICOR/PF
O banqueiro e o ministro: o que a PF encontrou no celular de Daniel Vorcaro
Do primeiro encontro numa garagem em São Paulo às mensagens enviadas na véspera da prisão, o relatório de 218 páginas reconstrói, com precisão de segundos, dois anos de relação entre o dono do Banco Master e o contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Na noite de 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro escreveu ao contato salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”: “Amanhã começam as batidas do esteves”. Logo depois, na manhã seguinte, a Polícia Federal bateu à sua porta.
O que está no centro do relatório
Nesse sentido, o relatório que documenta essa mensagem, a Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 3298613/2026, assinada por oito policiais federais em 27 de agosto, teve o sigilo derrubado nesta terça-feira (1º de setembro) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que remeteu o caso diretamente ao Plenário da Corte e deu cinco dias para a Procuradoria-Geral da República se manifestar. Além disso, ao fundamentar a decisão, Mendonça sustentou que a avaliação sobre a eventual abertura de um procedimento investigatório precisa ser conduzida de forma pública e transparente.
Já o documento de 218 páginas é resultado de uma requisição judicial com prazo de 72 horas: identificar os integrantes da suposta “rede de influência e monitoramento” gerenciada por Vorcaro, inclusive eventuais autoridades com foro por prerrogativa de função sujeitas ao art. 5º, I, do Regimento Interno do STF, o dispositivo que reserva ao Plenário o julgamento de ministros da própria Corte e do procurador-geral da República. No entanto, há uma ressalva processual importante: o despacho de Mendonça não nomeia Alexandre de Moraes como interlocutor das mensagens, referindo-se a pessoa “até então não identificada”. Assim, a atribuição ao ministro é conclusão da análise técnica da PF sobre os dados do aparelho, detalhada a seguir.
Os números centrais do documento
Seção 1Como a PF chegou ao destinatário: a pegada invisível do iOS
Os vestígios deixados pelo iOS
Em primeiro lugar, Vorcaro não escrevia mensagens diretamente. De acordo com o relatório, ele redigia textos no aplicativo Notas do iPhone, fotografava a tela e enviava a imagem pelo WhatsApp, um método que, na prática, impede que o conteúdo fique pesquisável como texto na conversa. Porém, o que o banqueiro aparentemente desconhecia é que o iOS gera, de forma automática e em pasta temporária inacessível ao usuário comum, um arquivo PDF com conteúdo idêntico ao exibido na tela. Dessa forma, esses “vestígios residuais” sobreviveram no aparelho.
Como a perícia cruzou os registros
Em seguida, com o software forense IPED e o Cellebrite Reader, os peritos cruzaram três fontes independentes: os PDFs residuais, os registros de uso de aplicativos (que documentam abertura, fechamento e o segundo exato de cada captura de tela) e os logs de envio do WhatsApp. Assim, a partir desse cruzamento, encontraram um padrão que se repete nas 52 notas mapeadas:
A sequência-padrão reconstruída pela perícia (exemplo real: nota de 28/10/2025)
- Abertura do aplicativo Notas e edição do texto 14:03:20 UTC
- Captura de tela e criação simultânea do PDF residual na pasta “tmp” 14:04:14 UTC
- Fechamento do aplicativo Notas 14:04:19 UTC
- Abertura do WhatsApp 14:04:21 UTC
- Envio de mensagem ao terminal +55 61 9266-4093 14:04:26 UTC
- Fechamento do WhatsApp 14:05:06 UTC
Em resumo, foram doze segundos entre a captura e o envio. Nesse sentido, em todas as 52 ocorrências analisadas, o primeiro destinatário após o screenshot foi o mesmo número, salvo na agenda de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Por fim, a validação da metodologia foi feita nas cinco mensagens de visualização única de 17/11/2025, cujos logs corresponderam exatamente aos envios registrados.
De onde veio a identificação do contato
Além disso, a identificação do contato tem origem documentada: em 26 de dezembro de 2023, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria compartilhou com Vorcaro, pelo WhatsApp, quatro fichas de contato com o mesmo número de telefone: “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. Em seguida, o compartilhamento ocorreu cerca de uma hora depois de os dois chegarem a um segundo encontro presencial cujo protocolo de entrada (garagem, segurança, placa do carro informada com antecedência) o relatório também reconstrói.
Linha do tempo: dois anos em registros datados
Em primeiro lugar, todos os eventos abaixo constam do relatório da PF, com datas e horários extraídos do aparelho de Vorcaro, exceto os marcos judiciais de 2026, documentados nos autos e no noticiário.
2023: Primeiros encontros e aproximação
Primeiro encontro, numa garagem em São Paulo
Primeiramente, Fábio Faria pede a Vorcaro modelo e placa do carro para “autorizar a segurança a acompanhar na garagem”. Em seguida, o banqueiro segue para o endereço “Tucumã 99”. Posteriormente, Faria manda áudio: o anfitrião “gostou da conversa” e quer montar “um negócio bacana demais”. Além disso, no áudio, menciona ter “um almoço com o Alexandre no CADE, meio-dia”.
Segundo encontro, e o contato entra na agenda
Em seguida, Vorcaro pergunta se é o “mesmo esquema entrar na garagem”. Além disso, uma hora após a chegada, Faria compartilha o contato “Alexandre de Moraes BRASILIA” (e as variantes “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”, todas com o número +55 61 9266-4093). Por fim, o contato é salvo às 11h43.
Almoço no Six Senses Botanique, em Campos do Jordão
Em seguida, após Faria avisar que “Alex” quer almoçar “no dia 30”, Vorcaro envia a localização do hotel e mobiliza funcionários. Além disso, durante a visita, um deles relata que o “ministro” pediu foto com a equipe e que o “Desembargador Airton” estava presente.
2024: Contratos, pagamentos e Londres
Viviane envia a minuta do contrato, editada por “Ministro Alexandre de Moraes”
Em seguida, doze dias após o almoço, o contato “Vivi Moraes”, sem qualquer registro anterior no aparelho, envia a Vorcaro a minuta de prestação de serviços entre o escritório Barci de Moraes e o Banco Master. Além disso, os metadados registram como autor Guilherme Benazzi e, como responsável pela última modificação, às 16h30 do mesmo dia, o usuário “Ministro Alexandre de Moraes”.
Versão final, modificada às 23h04 pelo mesmo usuário
Posteriormente, Vorcaro devolve o contrato com revisões de seu advogado; à noite, a versão final registra nova modificação pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes”. No mesmo dia, Faria negocia o prazo: fechou 4 anos, mas “pode fazer 3”.
Contrato assinado
Em seguida, Vorcaro assina às 15h15. Além disso, o valor estimado fica na casa de R$ 129 milhões, com parcelas mensais em torno de R$ 3,4 milhões. Além disso, no mesmo dia, Faria confirma jantar “com o Alex” para 2 de fevereiro, realizado num endereço residencial no Lago Sul, em Brasília.
Primeiro pagamento: R$ 3.422.268,14
Em seguida, Vorcaro pede ao cunhado o “contrato barci moraes assinado” e pergunta “Quando era o primeiro pgto?”. Posteriormente, no mesmo dia, recebe o comprovante da transferência do Banco Master para a conta do escritório no Itaú.
“O careca não pode atrasar”
Por isso, após a cobrança de Faria, Vorcaro ordena o pagamento imediato e orienta a funcionária responsável.
Fórum Jurídico de Londres, bancado por Vorcaro
Nesse sentido, as mensagens retratam o ministro, segundo a PF, como curador do evento: veto a participantes, sugestão de incluir Michel Temer, carros para os ministros “mais sensíveis” e pedido, transmitido por Vorcaro a um jornalista do Brazil Journal, para registrar que “os 3 ministros do STF se reuniram privativamente” com Tony Blair. Além disso, no mesmo período, articulam-se convites ao diretor-geral da PF (“Aí fechamos o PGR e o DPF”) com “todas as despesas bancadas por nós”.
“Estou com alexandre moraes”
Por fim, Vorcaro relata à filha, Stella, que está com o ministro, primeiro de uma série de registros de convivência que atravessa 2025.
2025: Intensificação dos contatos e das mensagens
Encontro que avança pela madrugada
Primeiramente, Vorcaro diz à namorada, e ao diretor do Banco Central Paulo Sérgio, que está “com Moraes”. Em seguida, após a meia-noite, relata: “acabou chegando hugo e ciro aqui pra falarem com Alexandre”. Além disso, dias antes, em 15/03, o advogado Ciro Soares lhe enviara foto ao lado de Paulo Gonet, seguida de “Liga aqui. Ele quer falar com você” e quatro chamadas de voz.
Ordem de blindagem do contrato
Em seguida, Vorcaro orienta o executivo Angelo Silva: ninguém deve ter acesso ao contrato com o escritório Barci de Moraes.
Feriado em Campos do Jordão
Por exemplo, “Indo encontrar alexandre moraes aqui perto de casa”, escreve o banqueiro à namorada, explicando que o ministro “tá passando feriado” na cidade. Além disso, novos registros de encontros em 29/04, 21/05 (“Ciro e alexandre”), 26/05 (jantar “com as mulheres”) e 08/08.
Segundo contrato: jato e helicóptero como pagamento
Em seguida, novo instrumento entre o escritório e a Vikings Participações prevê dação em pagamento com cotas de um jato Legacy 650 (US$ 5,5 mi) e de um helicóptero Airbus EC 155 B1 (US$ 1,3 mi). Além disso, Vorcaro manda enviar a brochura das aeronaves a Viviane. Por outro lado, surgem cautelas: “o escritório deles não pode ser parte do contrato” e a empresa dona dos ativos não poderia ter “sócios muito visíveis”: “haveria risco reputacional grande”, razão da migração discutida da “Barci” para a “Lux”.
“PG confirmou a ida pra Londres”
Posteriormente, Ciro Soares avisa Vorcaro e pergunta se “Pedrinho filho do PG pode ir com a gente”. Resposta: “Obvio”. Além disso, semanas antes, o banqueiro já havia autorizado despesas pagas para “Pedro e ciro” na lista do evento de 2025, que acabaria cancelado. Além disso, para o mesmo fórum, uma funcionária avisa em 10/07 que “O Andrei PF precisa de um convite formal para aceitar Londres”.
Fatura de R$ 22,8 milhões e aeronaves em uso
Em seguida, o advogado Leonardo Palhares cobra o início do “fluxo de pagamentos do escritório”; Vorcaro manda fazer “urgente” e “num volume maior”. Além disso, um sócio relata que “já usaram aviões e helicópteros” e encaminha print em que Viviane responde: “Sim, estamos gostando muito”. Além disso, em 22/07, uma funcionária diz ter passado o dia “com Vivi Moraes e o ministro fechando o programa do evento”.
“Não deixe de atender barci”
Em seguida, avisado de que o jato PP-NLR voaria “para Barci” no dia seguinte, Vorcaro dá a instrução à funcionária.
O contato ativa mensagens temporárias de 24 horas
Posteriormente, no chat direto com Vorcaro, “Alexandre de Moraes BRASILIA” passa a usar apagamento automático. Além disso, em 1º/10, quatro mensagens dele aparecem como “apagadas pelo remetente”. Por fim, no mesmo 1º/10, Vorcaro determina que os pagamentos ao escritório não sejam feitos por PIX.
As três notas centrais
Em seguida, Vorcaro envia ao contato, em questão de minutos, as notas que originaram a requisição judicial: a pressão sobre “G” no Banco Central, o pedido para “reforçar com Andrei e Paulo”, a lista de policiais e procuradores que iam ao Bacen e a revelação da fonte: “amigos de dentro do bacen” que ele “não pode queimar”. Além disso, o conteúdo integral está na Seção 4.
A frequência dispara
Em resumo, são dezenas de notas em duas semanas, inclusive de madrugada (01h18, 01h33), seguindo sempre o mesmo padrão screenshot-envio ao mesmo destinatário.
Véspera da prisão: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Por fim, cinco mensagens de visualização única ao longo do dia, reproduzidas na Seção 3, culminando às 20h48: “Amanhã começam as batidas do esteves”.
Operação Compliance Zero: prisão e apreensão do iPhone
Em seguida, Vorcaro é preso quando tentava embarcar em jato particular. Dessa forma, o aparelho apreendido na busca pessoal torna-se a fonte de todo o relatório.
2026: Investigação e desdobramentos no STF
A PF identifica as notas
Primeiramente, a IPJ-M nº 144738439.2026 traz as três figuras com as notas de outubro, ponto de partida da requisição de Mendonça para identificar o destinatário.
A investigação paralela do vazamento
Além disso, em frente separada, a PF apura o vazamento seletivo de dados do celular de Vorcaro: um perito é alvo de busca e afastado, suspeito de compilar arquivos como “Moraes.pdf” a partir da extração. Nesse sentido, é um flanco que as defesas devem explorar. Posteriormente, em junho, a PF havia rejeitado proposta de delação de Vorcaro que, segundo a imprensa, descrevia os contratos com o escritório.
O relatório é entregue
Em seguida, produzida em 72 horas por quatro agentes e quatro delegados, a IPJ-A nº 3298613/2026 chega ao gabinete de André Mendonça sob sigilo.
Sigilo derrubado; caso vai ao Plenário
Finalmente, Mendonça torna os autos públicos, remete o caso ao Plenário presencial do STF e abre prazo de cinco dias para manifestação da PGR, chefiada por Paulo Gonet, ele próprio citado no relatório.
Seção 2Os contratos com o escritório da esposa do ministro
Primeiro contrato: metadados e pagamentos
Em seguida, o primeiro contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes nasce doze dias depois do almoço de Campos do Jordão, e sem qualquer histórico de contato prévio entre Vorcaro e Viviane Barci de Moraes no aparelho analisado. Além disso, dois achados de metadados sustentam a seção mais delicada do relatório: tanto a primeira minuta quanto a versão final registram como responsável pela “última modificação” o usuário “Ministro Alexandre de Moraes”, em 11/01/2024 às 16h30 e em 15/01/2024 às 23h04. Por outro lado, o escritório confirmou à imprensa que o ministro teve acesso ao documento e fez alterações, afirmando que a consulta partiu da área de compliance da banca, para verificar eventuais impedimentos legais.
Prioridade e discrição nas ordens internas
Além disso, o tratamento que Vorcaro dava ao contrato também chama atenção. Nesse sentido, as ordens internas capturadas pela PF formam um padrão: prioridade absoluta, discrição máxima.
Segundo contrato: aeronaves entram na estrutura
Por outro lado, o segundo contrato, de maio de 2025, muda a moeda: em vez de dinheiro, cotas de aeronaves. Assim, o instrumento entre o escritório e a Vikings Participações previa dação em pagamento com participações nas empresas donas de um jato Embraer Legacy 650 (cota de US$ 5,5 milhões) e de um helicóptero Airbus EC 155 B1 (US$ 1,3 milhão). Além disso, dias antes da minuta, Vorcaro mandou enviar a Viviane a brochura comercial das duas aeronaves.
Em contrapartida, as conversas com o advogado Leonardo Palhares registram as cautelas da outra parte: “o escritório deles não pode ser parte do contrato, não pode ter participação em empresas”; a empresa dona dos ativos não poderia ter “sócios muito visíveis”, pois “haveria risco reputacional grande”, e a discussão de migrar a estrutura da “Barci” para outra empresa, chamada “Lux”. Em seguida, em julho, uma fatura de R$ 22,8 milhões aguardava pagamento e um sócio de Vorcaro relatava: “Já usaram aviões e helicópteros”, anexando print em que Viviane responde que estavam “gostando muito” da utilização das cotas.
Seção 317 de novembro de 2025: as mensagens da véspera
Um chat marcado por mensagens temporárias
Nesse sentido, o chat direto entre Vorcaro e o contato “Alexandre de Moraes BRASILIA” é curto, e isso, para a PF, também é informação. Além disso, desde 17 de setembro, o contato usava mensagens temporárias com apagamento em 24 horas; as quatro mensagens dele registradas em 1º de outubro constam como “apagadas pelo remetente”, e as recebidas em 17 de novembro eram imagens de visualização única, não recuperadas. Ainda assim, sobreviveram as cinco notas enviadas por Vorcaro (recuperadas pelos PDFs residuais) na véspera exata da operação que o prenderia:
WhatsApp Chat, Alexandre de Moraes BRASILIA (+55 61 9266-4093), 17/11/2025, reconstrução conforme Figuras 38–40 do relatório
Manhã: o primeiro alerta do dia
Fim da tarde: pedidos por novidades e bloqueio
Noite: a mensagem sobre as “batidas”
A sequência que antecede a prisão
Logo depois, na manhã seguinte, 18 de novembro, Vorcaro foi preso quando tentava embarcar em um jato particular. Nesse sentido, para os investigadores, a sequência: perguntas sobre “bloquear”, cobranças de “novidades” e a antecipação de “batidas” para o dia seguinte, sugere que o banqueiro dispunha de informação antecipada sobre movimentos investigativos e buscava interferência sobre eles. Assim, essa é a hipótese que o Plenário do STF terá de avaliar; as respostas recebidas, se existiram além das imagens efêmeras, não puderam ser recuperadas.
Seção 4As três notas que originaram tudo
Como as notas foram recuperadas
Em seguida, três notas de 30 de outubro de 2025, enviadas em sequência de doze minutos ao mesmo contato, motivaram a requisição judicial. Além disso, a perícia recuperou o texto integral pelos metadados dos arquivos, inclusive a informação de que estavam na pasta “Recently Deleted” (apagadas recentemente) do aplicativo:
NOTA 1, modificada em 30/10/2025 16:32:25 UTC, enviada às 16:33:03 UTC, pasta: Recently Deleted
NOTA 2, modificada em 30/10/2025 16:38:12 UTC, enviada às 16:38:40 UTC
NOTA 3, modificada em 30/10/2025 16:44:40 UTC, enviada às 16:44:56 UTC, pasta: Recently Deleted
Seção 5Londres, Gonet e Andrei: o alcance da rede
O Fórum de Londres como ponto de conexão
Nesse sentido, o Fórum Jurídico de Londres, bancado por Vorcaro em abril de 2024 e planejado novamente para 2025 (quando foi cancelado), funciona no relatório como retrato do método: um evento de prestígio como plataforma de relacionamento com o topo do sistema de Justiça. Além disso, pelas mensagens, o ministro teria vetado participantes (“Alexandre morre se vc fizer isso”, escreve Vorcaro sobre a hipótese de escalar Antonio Rueda como moderador), aprovado listas de convidados, sugerido a participação de Michel Temer, reclamado da organização e pedido, via Vorcaro, que o Brazil Journal registrasse a reunião privada de “3 ministros do STF” com Tony Blair. Posteriormente, em julho de 2025, uma funcionária relata ter passado o dia “com Vivi Moraes e o ministro fechando o programa do evento”.
As menções a Gonet e Andrei Rodrigues
Nesse contexto, é no entorno de Londres que o relatório situa também o procurador-geral da República e o diretor-geral da PF, exatamente os “Paulo” e “Andrei” da nota de outubro. Em seguida, o convite ao “DPF Andrei” foi articulado em abril de 2024 (“Aí fechamos o PGR e o DPF”, escreve um interlocutor não identificado), com “todas as despesas bancadas por nós”, segundo resposta dada à assistente do diretor-geral. Posteriormente, em 2025, o convite formal volta a ser tratado.
Por outro lado, quanto a Gonet, o advogado Ciro Soares aparece como ponte permanente: encaminha mensagens atribuídas ao procurador-geral (“Você é uma máquina”), envia foto ao lado dele seguida de “Ele quer falar com você”, confirma que “PG confirmou a ida pra Londres” e pergunta se “Pedrinho filho do PG pode ir com a gente”: “Obvio”, responde Vorcaro, que autoriza despesas pagas para “Pedro e ciro”. Por fim, num episódio de abril de 2024, Ciro relata ter pedido a Gonet que convencesse um candidato a desistir de uma disputa em favor de um aliado, e que o procurador-geral teria ligado à noite avisando: “ele vai desistir”.
Limites da análise policial
De acordo com o relatório, por força da LOMAN e da Lei Orgânica do Ministério Público, a PF não realizou “quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público”, limitou-se a expor elementos já existentes no material apreendido, sob supervisão judicial. Além disso, as menções a Gonet e Andrei Rodrigues derivam de mensagens de terceiros e não foram objeto de diligências próprias.
Seção 6O que dizem os citados e o que ainda falta
Ressalvas indispensáveis
Em primeiro lugar, o documento é uma peça de análise policial, não uma denúncia. Além disso, nenhum dos citados foi acusado formalmente ou condenado pelos fatos descritos, e a retirada do sigilo não representa reconhecimento de crime pelo STF. Portanto, a todos se aplica a presunção de inocência.
Por outro lado, o escritório Barci de Moraes afirma, em nota, que a contratação passou por consulta de compliance sobre eventuais impedimentos legais, que o ministro jamais julgou causas envolvendo o Banco Master e que os serviços foram efetivamente prestados: 36 pareceres e 94 reuniões de trabalho entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, com pagamentos interrompidos após a prisão de Vorcaro. Além disso, Alexandre de Moraes não se manifestou diretamente sobre o relatório até a publicação deste texto; as defesas de Vorcaro, Fábio Faria e dos demais citados também não haviam comentado, e Gonet e Andrei Rodrigues não se pronunciaram sobre as menções.
Além disso, há um flanco processual relevante: corre em paralelo o inquérito sobre o vazamento seletivo de dados do mesmo celular, no qual um perito da PF foi afastado sob suspeita de compilar e repassar arquivos sobre ministros. Por isso, a cadeia de custódia e o contexto das extrações tendem a ser o principal terreno de disputa das defesas.
Os próximos passos no STF e na PGR
Os próximos passos, portanto, se resumem a três movimentos. Primeiro, a manifestação da PGR no prazo de cinco dias, sob o desconforto institucional evidente de o próprio procurador-geral figurar no material. Depois, a deliberação do Plenário do STF sobre abrir ou não investigação formal envolvendo um de seus ministros, hipótese regida pelo art. 5º, I, do Regimento Interno. Por fim, a conclusão das duas frentes conexas descritas no relatório: a suposta propina a servidores do Banco Central (PET 15.504) e a atuação do grupo apelidado de “Turma” (PET 15.499), ambas em estágio avançado, com oitivas iniciadas e previsão de conclusão das análises em cerca de 60 dias.
O que o relatório já produz no caso
Por fim, qualquer que seja o desfecho, o relatório já produziu um efeito sem precedente: pela primeira vez, a relação entre um dos homens mais poderosos do sistema financeiro brasileiro e um dos ministros mais influentes do Supremo está documentada, datada em segundos e submetida ao escrutínio público.





